
o desemprego, a verdadeira praga que nos cerca e começa a asfixiar. directa a (já) demasiados; indirectamente a todos!
qual gripe dos porcos, qual carapuça!
nem mais caro AB....
não têm nada a ver com este post mas hoje faz 15 anos que infelizmente faleceu o grande Ayrton Senna....
tentei procurar aqui no blog alguma referência sua ou pensamento seu sobre o grande piloto brasileiro mas não encontrei, o caro AB gosta de F1?
saúde e bom fds
De facto é incrivel o que se passa a nível mundial!!!Mas há aqueles que continuam a viver à grande e à francesa à custa dos desempregados e da escravização dos empregados...bancários, operários, pescadores,etc.etc....porra afinal onde param os iluminados que tinha "cura" para todos os males da sociedade? Agora nem sei que dizer ao assistir ao "noivado" do PCP com a Igreja Católica!!!Se é certo que todos em conjunto melhor poderão arranjar soluções para combater este flagelo que é o desemprego há coisas que a minha pouca inteligência não consegue abarcar!!!Enfim...que se encontre uma porta para resolver nem que seja preciso "casar" o Diabo com Deus.Será?
De
AG a 3 de Maio de 2009 às 03:11
Se a memória me não falha, aos onze anos bati palmas pela última vez com entusiasmo e convicção. Acossado pela guerra, um circo francês tinha vindo erguer a sua grandiosa tenda no terreno dum estaleiro, junto ao rio Douro, e durante semanas correu o povo a admirar os malabaristas, os funâmbulos, os leões amestrados, os cães sábios, a mulher-cobra, o número especial das coristas “que dançavam o can-can como em Paris.”
Fui lá dois domingos e de ambas as vezes o meu encanto não conheceu limites. Recordo também que de tanto aplaudir as mãos me deram a impressão de escaldar, e que ao mesmo tempo me tomou um sentimento de ridículo, ao dar-me conta ter visto num filme um grupo de macacos que (entusiasmados ou temendo pauladas, quem o saberá?) também batia palmas.
Creio que desde esse momento acabaram para mim as expressões exteriores do entusiasmo e comecei a encarar as alheias com certa desconfiança.
Quando pouco depois apareceram as primeiras fotografias de Churchill, francamente julguei que os dedos lhe tivessem ficado assim abertos devido aos gordos charutos. Ao saber que aquilo era um símbolo de vitória, achei inconveniente que um senhor de idade, e tanta importância, se desse a criancices que eu próprio, criança, desaprovava.
E não falo do punho fechado dos comunistas, do passo de ganso ou da saudação hitleriana. Nem do braço estendido à fascista com que nós na escola, ao sábado, saudávamos a bandeira, antes e depois de inúteis marchas em torno do recreio.
Nunca gritei “Bravo!” ou “Bis!”, e quanto mais profunda é a minha emoção ou excessivo o meu entusiasmo, maior se me torna o desejo de silêncio e o desagrado pelas exteriorizações públicas. O frenesim da ovação em pé sempre me pareceu suspeito, mas tão corriqueiro se tornou que todos nós sabemos que se trata antes dum ritual que duma manifestação de apreço.
Também nunca dei um “Viva!”, um “Morra!”, nenhum “Abaixo o capital!” nenhum “Morte ao comunismo!”, ou morte ao que quer que fosse.
Por razões humanas e motivos pessoais odiei intensamente a ditadura do meu país. Mas, mais pelo temor do grotesco do que pela consciência de não ter força para causar a queda do primeiro, nem desejo ou ocasião de eliminar fisicamente o segundo, nunca me ocorreria - mesmo quando já nisso não havia perigo - sair para a rua a gritar “Abaixo o fascismo!” ou “Morra Salazar!”
O facto de na China não ser costume bater palmas, sempre me pareceu um indício mais seguro do seu grau de civilização, do que o refinamento da culinária. No início, chegado aqui vindo de terras onde por tudo e por nada freneticamente se berram “Vivas!” e “Morras!”, a sobriedade holandesa no que respeitava os gritos e os gestos foi para mim uma agradável descoberta.
Não era a China, nem eu esperava que fosse, mas pareceu-me bom sinal viver entre um povo que me não obrigava com frequência ao despropósito de ter de imitar os antropóides para exprimir o meu apreço. E como nunca fui habitué de concertos ou teatros, nem assíduo nas funções sociais em que a homenagem ou o discurso requerem o aplauso, nesse particular a minha vida decorria a contento.
O que eu não acreditaria se então mo tivessem dito, é que nos gritos e nos gestos os holandeses iriam evoluir até ao excesso. O resto do mundo, talvez. Mesmo os chineses que, segundo acabo de ler, decaem já no bater palmas. Mas os holandeses?
Contudo assim é. No prazo de escassos anos este povo, que eu julgava comedido, passou da sua decente reserva para a expressão desenfreada das emoções e dos instintos. Ao aplauso discreto do passado sucedeu o bater frenético que, seja em que ocasião for, parece nunca mais acabar. A ovação em pé não é reservada para os artistas de excepcional valor, mas oferecida indiscriminadamente a todos, mesmo os péssimos. E, desdenhando doutros modos mais adequados para exprimir a sua alegria, já vi holandeses pacíficos às patadas no chão como zulus em pé de guerra. A torto e a direito, para festejar um exame, um presente de aniversário, o ganho duma panela num concurso ou numa rifa, uma vitória nas eleições da associação, não se satisfazem com um único V, erguem os braços para fazê-los consecutivos, só param o gesto quando se lhes acabam as forças.
Também em nenhuma outra parte me foi ainda dado assistir ao extravagante rito dos três beijos, acompanhados dum simultâneo e sacudido apertar das mãos. No seu exagero pode assemelhar-se a várias coisas: dança, prólogo de luta, cerimónia protocolar de chefes de tribu, golpe de catch entre oponentes desajeitados, mas é preciso boa-vontade para se reconhecer nele o gesto de amizade ou simpatia.
Com o passar do tempo damo-nos conta de que à desvalorização já antiga do significado das palavras sucedeu a desvalorização dos gestos. O valor do dinheiro, esse, pelo menos na Holanda, permanece beneficamente estável. Mas a longo prazo, na sempre complexa evolução duma sociedade e da sua cultura, força é constatar que não só de dinheiro vive o homem, mas sobretudo de palavras e de gestos.
J. Rentes De Carvalho...
Um grande escritor português.
Com a devida vénia.
do blogue..."O TEMPO CONTADO".
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