Terça-feira, 20 de Julho de 2010
a quadratura do circo - o queiroz que eu conheço
"(...) Já nos idos de oitenta, quando privávamos diariamente com a humildade de um laborar conjunto e a intimidade do desabafo, dia a dia, anos seguidos, no Liceu de S. João do Estoril, o Carlos era assim. Tranquilo, educado, correcto, cordial; mas um tanto inseguro, defensivo, elaborado, meticuloso, gestor de palavras e projectos, investigador, evasivo, contornante.

Vínhamos ambos de um INEF, onde ambos tínhamos sido alunos de topo com três anos de diferença, mas a minha vocação de autor e poeta sobrepôs-se à minha ambição monetária. Aí, assumi causas, escrevi combate, abracei a vida difícil de músico e compositor, arrisquei opinião, defendi a cultura convivida e esqueci-me dessa secreta ambição que me poderia ter dado fortunas impensáveis e colossais. Acresce que fui ainda “colega” - uns mais novos, outros mais velhos…- de Jesualdo, Vingada, Mourinho, Caçador, etc. por aí fora.

Coube-me ainda, por acasos da vida, vir a ser professor dos internacionais irmãos Xavier, precisamente no sítio onde fui professor e colega de Queiroz.

Tudo isto para justificar que ainda tenho os galões e sei dos livros. Bem podia ter sido treinador, tivesse a vida virado por aí… Não fui. Mas sei do que digo, quando ainda hoje falo de Fisiologia do esforço, treino físico, táctica e técnica de jogo, motivação, etc.

Por isso me sinto autorizado a dizer que falhaste.

Depois daquela geração de ouro, com que foi fácil ser campeão do Mundo de juniores, havia que sedimentar outra densidade humana e outra leitura alta para… frutificar.

O tecido humano de uma equipa de futebol a alto nível é ainda vaidoso, inconsequente irreverente, difícil. Os jogadores de topo são normalmente jovens ricos e mimados, com todos os defeitos da imaturidade; mas há outros que entretanto começaram a aparecer com um discurso adulto, assente em muito saber e experiência e já não admitem ensaios nem improvisos. Já foram treinados por pessoas e métodos muito variados e sabem num minuto avaliar a segurança e o valor do seu comandante.

Eu também tremeria se visse o dentista enganar-se, trocar os instrumentos e dar ordens contraditórias. Tudo isto para dizer que um treinador não escapa ao olhar crítico, não só da massa associativa, como dos próprios jogadores. E todos pensam, avaliam, julgam.

Ora uma representação nacional é uma montra do país. E a massa associativa são todos os portugueses. Que, aliás, são eles a pagar - e bem, ao que parece…- o servicinho…

As tuas equipas Carlos, tornam-se um pouco aquilo que tu és.

Se queres transmitir que não sofrer toques no gilet já é triunfo; se achas que defender, para não sofrer humilhação, é uma forma de vitória; se admites que é preferível empatar a zero a arriscar a estocada que nos expõe; se queres ganhar sem risco, através de alguma cartomancia ocasional; se preferes convocar 18 jogadores com características médio/defensivas em cada 23, muito bem.
Isso és tu. Tal qual te conheci.

Continuas temperamentalmente na mesma. Cauteloso, ponderado, estudioso.

Mas no futebol de competição e de selecção nacional - e dispondo, como dispunhas, dos melhores e de todos os meios à disposição para fazer um enorme Mundial – há que arriscar a glória, para não sair por falta de coragem.

Ser agressivo, objectivo, ambicioso. E desportivamente astuto, líder, entusiasta, galvanizante. E, ao nível de grupo, companheiro, amigo e confidente, criando empatias totais, emocionais, sinceras com os jogadores. Coisas que nunca mostraste.
As tuas convocações, as tuas estratégias, as tuas substituições, os teus jogos ocultos - que transparecem, Carlos, desculpa, mas transparecem demais e são evidente falta de alegria no seio da equipa…- foram quase sempre negativos.

Mas há mais.

As lesões convenientes do Ruben, para não levantar mais polémica; do Nani, por mistério interno que ninguém sabe mas, sem nunca haver boletim médico, tudo indica que foi por forte falta disciplinar não assumida; do Deco, nitidamente por espírito de vingança, o que é feiíssimo.

As ordens do banco, as palestras de intervalo, as escolhas tácticas, as trocas de jogadores - que nem eles próprios aceitam, nem compreendem; o rigor oculto por um sorriso farisaico, para que tudo pareça controlado, quando o que está a ver desenvolver-se todos os dias é revolta e discordância…

A obsessiva tendência defensiva, as indecisões infantis em lugar e momentos chave. Precisar de municiar atacantes com passes a rasgar, largos e imaginativos e manter o Deco no banco, por birra, é infantil. Ver os ataques passarem por trás do R. Costa, pois não é bem um defesa direito, e ter dois defesas direitos no banco, é, no mínimo, ou teimosia ou autismo. Insistir no Pepe sempre Pepe para destruir, quando se sabe que ainda não pode estar a 100%...

Mas há ainda mais.

Precisar de atacar e retirar avançados. Deixar as linhas de defesa e médias próximas e desterrar lá para a frente os sacrificados pontas, sem apoio, nem bola, nem municionamento à vista, a vinte metros de distancia, dependendo das explosões de Fábio C. ou de outros eventuais e raros passes a rasgar, sempre fora do desenlace pretendido. Não estruturar ataque. Não se ver uma construção apoiada e consistente de teia de jogo, vivendo do génio e inspiração de cada um. Não incentivar ataque.

Não apresentar um único esquema de livre estudado, em tantas ocasiões que se prestavam para experimentar. Idem também não haver combinações visíveis na marcação de cantos.

Outra coisa.

Ronaldo lá por ter sido o melhor, - se calhar… coisa boa e má, por prematura, que lhe aconteceu… - não deixa de ser um jovem mimado que bate na relva em fúria quando as coisas lhe correm mal. Capitão de equipa? Nunca. Capitão era o Coluna, ou o Germano. Caramba! - Bastava um olhar reprovador e o colega enfiava-se pelo chão! (...)"


por pedro barroso -  autor, compositor e intérprete musical, colega de carlos queiroz no antigo 'inef', 'post' que pode ser lido na íntegra no blogue "textos longos".
(um obrigado ao ricardo oliveira pela dica)


publicado por António Boronha às 14:42
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34 comentários:
De José Lemos a 20 de Julho de 2010 às 14:49
Mas que grande texto!!


De RG a 20 de Julho de 2010 às 15:06
Muito bom


De Diogo Sousa a 20 de Julho de 2010 às 15:16
Nem mais nem menos.
Quem assim fala ( escreve ) nao e' gago!
Texto longo mas verdadeiro
abraco


De Outsiders a 20 de Julho de 2010 às 15:45
Muito bom. Muito bom mesmo.


De Vicente a 20 de Julho de 2010 às 16:22
"Depois daquela geração de ouro, com que foi fácil ser campeão do Mundo de juniores (...)"

O que dizer de Scolari e de todos aqueles que o antecederam (Artur Jorge, Oliveira, Humberto Coelho) que nem um título europeu conseguiram c a geração de ouro... este Pedro Barroso devia mm ter seguido a carreira de treinador...


De Offshore a 20 de Julho de 2010 às 16:35
Muito curioso.
Não conhecia a formação académica do Pedro Barroso, cujo musico guardo uns lps e k7.

Bom texto e bem escrito, passe o 'exagero' de considerar ser fácil ter sido campeão em '89 e '91


De Mr. Shankly a 20 de Julho de 2010 às 16:40
Não concordo com tudo, e acho o texto deselegante. Mas o básico está lá: dói ver a selecção com tamanha falta de coragem, saindo do Mundial sem jogar verdadeiramente e ainda ter que ouvir que vêm com a sensação do dever cumprido. O Mundial é demasiado belo para ir jogar para não perder. Uma tristeza.


De Alentejano a 20 de Julho de 2010 às 16:46
É um texto em consonancia com as palestras do CQ!!!Segundo se diz da primeira vez que foi selecionador quando algum jornalista o "atacava" o tipo telefonava-lhe e passava tempos infindos a argumentar contra o seu artigo.Porra já chega senão sou pior que ele!!!Eu não dizia que o AB anda com "eles" na àgua ...salgada?!!!


De antonio boronha a 20 de Julho de 2010 às 16:58
Alentejano,

Infelizmente, porque as razões foram as piores, estou acabadinho de chegar da tua terra. Mais concretamente de Ferreira do Alentejo.


De Alentejano a 20 de Julho de 2010 às 17:00
Porra, alguém morreu?Eu não sou de Ferreira sou de BEJA!!!


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